Ligou-me há um mês atrás para me dar os parabéns. Do
Indiana. Estava calor, vários fahrenheit, que só por si já são muitos. “Em
Chicago é que é bom”, acrescentou. Que grande maluco! O que virá a seguir? “Estou
no Alabama! Aqui no faroeste do Colorado é uma autêntica torreira”. Imagino-o
nos desfiladeiros, dos filmes de cowboys que víamos na infância. A esta
distância, agora percebo que logo nessa altura, o mundo poderia ser pequeno
para o irrequieto Carlitos. Eramos como irmãos. Para mim também um melhor
amigo. Fazíamos coisas de putos, normais da idade. Com as raparigas sempre foi
mais afoito. Mas agora refiro-me aos espalhanços de bicicleta, aos carros de
rolamentos, aos piões. Partilhas e cumplicidades. Algumas bem parvas, como escondermos
um ramo de cabeças de alho nos sacões de papelão de dezenas de pães que os
nossos pais nos encomendavam para o café.