Mais Meio dia. Última manhã, com nuvens sem
chuva, mas mais frio. Passeio calmo pelas redondezas em dia de fecho de museus,
descoberto da pior forma: nariz na porta do Carnavalet. Regresso pela ilha Saint-Louis,
residência de privilegiados e pouco mais, no passar do
tempo para a despedida, na submersão para o comboio de regresso. Não teremos visto tudo, o que não passará de mera desculpa para um regresso certo.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Paris em 2 dias (3 de 3)
Em jeito de itinerário turístico e porque me
deram bastante jeito as sugestões cibernéticas, aqui ficam as minhas impressões
do nosso percurso em Paris. Quem sabe se também não serão uma ajuda para alguém.
Dia 0. Ficamos na zona Staint-Michel-Notre Dame,
Saint Severin num hotel com o mesmo nome. Recomendo. A chegada de comboio subterrâneo
leva-nos para uma emersão abrupta no meio de um cartão de visita: Catedral
Notre Dame. Por muito que se tenha evoluído, e existam vistas de rua no Google,
nada se compara ao estar lá e ter o sentido de estar perdido com um ligeiro
atordoamento de toda a envolvente, os edifícios históricos, o rio, a ponte, a
ilha. Depois de largadas as malas e como o sol desaparecia rapidamente, de novo
para o comboio com destino ao ícone maior: Torre Eiffel. A primeiríssima
impressão até nem foi assim tão impressionante, mas com a aproximação, o céu
num límpido azulão de início de noite, a torre iluminada de amarelo e crescente
a cada passo, as toneladas de ferro parecem ter íman. Não se desvia o olhar e só
paramos quando ela nos cobre. Um crepe com chocolate e outro com mel para
aquecer. O rio sempre presente. As filas intermináveis levam-nos a atravessar a
ponte e subir ao Trocadero e de novo a torre, no centro, avistada de local com
engenho milimétrico para nos ombrearmos e iludir com a possibilidade de a
agarrar com a própria mão. Já de regresso ao Quarter Latin para jantar num dos
muitos restaurantes das movimentadas ruelas desta zona. Sopa de cebola em todos
os menus. Não fiquei fã, ao contrário da Tatiana.
Dia 1. Depois da entrada rápida no interior da
catedral do corcunda, segue-se o Hotel de Ville. Imponente, telhados íngremes, escuros, caraterísticos, numa praça larga
apenas agitada pelo som da brisa forte nas árvores. Manhã cedo. Fria, cinzenta,
céu baixo e carregado, gotas de chuva aqui e ali, algumas rajadas que
desarranjam o cabelo, ruas sossegadas e apenas ocupadas pelo tempo desconfortante.
Pouco convidativo mas, para mim, o ideal para a viagem à época sombria e
inóspita da Idade Média. Seguimos para Este pelas ruas do bairro Marais até
Place des Vosges. Apanhamos o metro para poupar as pernas, pois o dia é longo,
e invertemos o sentido rumo ao Louvre.
A saída da estação leva-nos para a fila
da entrada. Perto de uma hora para o conseguir, com compra do bilhete incluída. Podia ser
pior. Mapa, orientação e resistência para explorar os 3 pisos de museu.
Estátuas, estatuetas, espadas, joias, jarras, tapetes, carpetes, utensílios,
quadros e mais quadros de toda a parte numa vasta coleção. Até ao quadro dos
quadros: Mona Lisa. Ir a Paris tem que significar obrigatoriamente visitar o
Louvre. Dá para meio dia, nós despendemos perto de 3 horas, porque o corpo já
reclamava, o sol chamava lá fora e o almoço também.
No Jardim dos Tuileries,
curta paragem para descansar, aquecer o estômago com baguetes e croissants do
Paul, que está em todo o lado, o rosto com o sol intimidado por nuvens teimosas
e a alma com um café expresso de 2 euros por ser de levar, para ficar seria
mais 1. Continuando para Oeste, o jardim termina na Praça da Concórdia, larga,
agitada pelo trânsito em redor do obelisco e de duas fontes, à esquerda uma das
inúmeras pontes de curta distância sobre o Sena, esta também da Concórdia, bem
larga, com vista para mais um palácio.
Segue-se, uma das avenidas mais famosas
do planeta: Campos Elísios. Umas primeiras centenas de metros verdes que
antecedem a azáfama. O sol segue baixo e demorado no horizonte, talvez um dos
motivos para a multidão que se passeia por esta zona da avenida, autêntico
centro comercial a céu aberto, onde se torna difícil progredir. Termina-se em
mais um marco: Arco do Triunfo. Nova paragem, desta feita deitados mesmo numa
das laterais do arco, motivos: descanso e sol. No seguimento da avenida ainda
avistamos La Defense, mas cortamos pela Kléber em mais uma caminhada até ao
Trocadero e, de novo, a torre. Fotos e mais fotos, vários casamentos com noivas
arreganhadas, um grupo de dança de rua com boa mexida dance dos anos 80. Mais
uns crepes para recarregar baterias e
corda aos sapatos pela margem direita do rio até Pont D’Alma. Bateaux Mouches e
cruzeiro noturno a descoberto, mas com fatiota à pescador do Mar do Norte,
pelo Sena com os vários monumentos iluminados. Outro programa obrigatório.
Dia 2. Manhã mais cinzenta e chuva um pouco
mais persistente. Pequena incursão a pé para Sul. Domingo no seu início como
tantos outros, calmo e com pouca gente. Panteão, universidade Soborne, Jardim
Luxemburgo pouco povoado, um grupo de turistas, atletas matinais e dezenas de
cadeiras de ferro, verdes, vazias para dias de relaxe ao sol. Metro, que o dia anterior fez mossa.
Para Norte, chegada a Montmart para a visita a mais um ponto a não perder:
Basílica Sacré Couer e bairro envolvente. Escadaria, numa encosta elevada que
permite uma visão sobre boa parte da cidade. Aqui teria preferido o sol em vez
do frio, chuviscos e vento cortante. No interior da basílica bem mais
aconchegante, decorre a missa dominical, o que não impede os turistas de
circundarem todo o recinto, dentro do silêncio possível. Nova oportunidade para
descansar enquanto decorre a homilia. Place du Tertre, pequeno largo onde se pinta tudo e mais
alguma coisa, apesar da humidade.
Continuação pelo bairro e uma das ruas mais
famosas, Lepic, morada do café da Amélie, que não visitamos. Avistamos sim o
Moulin de la Galette, antes da ponta final da rua. Aqui já se sente a vivência
de um bairro típico, com todo o comércio e agitação das compras matinais de
domingo, pão, fruta, legumes, chocolates, bolos, em pequenas mas cuidadas lojas de rua,
e de novo o Paul, mais baguetes e croissants. A rua termina no Moulin Rouge, e
na avenida do red district de Paris, Boulevard de Clichy. Depois de breve
paragem, longa e nada rentável caminhada para Sul. Já com sol aberto passamos
pelas galerias La Fayete fechadas por ser domingo. Ópera e paragem para
cappuccino e chá quente. Nova praça, Vendome, rodeada pela alta costura. Ironicamente damos por falta do impermeável da Tatiana. Nova
igreja, em forma de templo clássico grego, Madeleine, com pequena escadaria a
partir da qual se percorre sem andar, apenas com olhar frontal, a Concórdia,
obelisco, ponte, palácio Bourbon e cúpula dos Invalides.
Para onde seguimos,
mas apenas avistamos da Ponte Alexandre III. Já sem grandes planos,
desperdiçamos a oportunidade que o primeiro domingo do mês oferece para visita
gratuita aos museus d’Orsay e Rodin. As pernas não ajudaram à decisão. Entramos no metro,
duas mudanças de linha, percursos labirínticos nos túneis das estações e
ligações. Sem grande beleza não deixam de ser interessantes pelo emaranhado e longevidade aparente, talvez o mais parecido com os tuneis dos esgotos, também visitáveis. Alguns minutos depois, poucos para a distância, estamos na ponta Este da cidade já bem fora
do centro, e saímos com entrada direta para o cemitério Pére Lachaise.
Imensidão fúnebre de última residência de várias celebridades, com direito a
mapa e tudo. Fomos em busca do mais famoso com a campa mais discreta e
escondida: Jim Morrison. Local também onde alguns, visitantes, desfrutam do
pôr-do-sol. Regresso ao hotel e tempo para mais um crepe. Pequeno passeio à
noite pela zona Saint-Michel.
domingo, 25 de novembro de 2012
Musée d’Or (2 de 3)
Fiz como o Sócrates, pirei-me e
fui desanuviar. Está visto que fui a Paris. E resulta, em poucos minutos e
durante alguns dias esquece-se por completo tudo o resto. A cidade faz jus à
fama e somos completamente absorvidos por ela. Dá vontade de andar todos
aqueles quilómetros para trás e para frente, rio acima, rio abaixo e
simplesmente apreciar. A cada rua, caminho, esquina, paisagem, brota cultura,
misticismo, história e arte. Um património de valor incalculável, percebe-se
estimado e rentabilizado pelos franceses. Milhões e milhões de turistas e euros
a circular. Ininterruptamente. A vaidade e exuberância francesa de outros tempos
foi preservada, até um paralelepípedo chamado de obelisco que roubaram aos
egípcios lá está, em substituição da guilhotina, erguido na praça que
ironicamente se chama de concórdia. A própria guilhotina para lá deve estar, eu
não a cheguei a ver. Vi muitas outras coisas e dei comigo a pensar, e nós? Com
séculos e séculos de história com o mais variado recheio, não teríamos o
suficiente para fazer o equivalente a centros comerciais de museus? Espera,
isso já temos. Não teríamos o suficiente para fazer estádios de museus? Isso
também. Não teríamos o suficiente para fazer autoestradas de museus? Outra.
Aproveitando a deixa do Miguel Sousa Tavares, não teríamos o suficiente para
fazer Alquevas de museus? A quantidade de quitangas que os nossos
descobridores arrecadaram (roubar era para outros), daria certamente para
algo mais do que apenas especiarias. Não que despreze as especiarias, têm a sua
função, mas para o turismo, não será fácil convencer um turista, dizendo-lhe que
há por cá bom petisco.
É certo que temos outros atrativos de grande valor e características únicas, mas quanto a museus, Portugal, estando longe de ser um zero, podia ser muito mais. Teremos passado suficiente para vários Louvres. Segundo se diz, desbaratamos quase tudo em ouro. Temos das maiores reservas de ouro do Mundo, pelo menos relativamente ao nosso tamanho. Em termos absolutos somos 14º. Em termos práticos pouco vale, apenas chega a cerca de um terço da ajuda total do resgate atual do FMI. Então, se não temos total liberdade para o vender, nem isso adiantaria grande coisa, sugiro que se crie o museu do ouro. Sempre tive curiosidade em saber se ele existe mesmo em forma de barras, ou como uma qualquer gruta pirata, num mar de joias. Seria algo grandioso, imagine-se uma sala longa e no centro, protegidas por uma redoma de vidro à prova de roubo, toneladas de ouro em barras ou joias, todas amontoadas e acessíveis, à vista, dos visitantes. Para mim seria brilhante! E para completar o quadro, num dos topos, qual guardiã, o retrato pintado da Merkel em pose Mona Lisa.
É certo que temos outros atrativos de grande valor e características únicas, mas quanto a museus, Portugal, estando longe de ser um zero, podia ser muito mais. Teremos passado suficiente para vários Louvres. Segundo se diz, desbaratamos quase tudo em ouro. Temos das maiores reservas de ouro do Mundo, pelo menos relativamente ao nosso tamanho. Em termos absolutos somos 14º. Em termos práticos pouco vale, apenas chega a cerca de um terço da ajuda total do resgate atual do FMI. Então, se não temos total liberdade para o vender, nem isso adiantaria grande coisa, sugiro que se crie o museu do ouro. Sempre tive curiosidade em saber se ele existe mesmo em forma de barras, ou como uma qualquer gruta pirata, num mar de joias. Seria algo grandioso, imagine-se uma sala longa e no centro, protegidas por uma redoma de vidro à prova de roubo, toneladas de ouro em barras ou joias, todas amontoadas e acessíveis, à vista, dos visitantes. Para mim seria brilhante! E para completar o quadro, num dos topos, qual guardiã, o retrato pintado da Merkel em pose Mona Lisa.
sábado, 24 de novembro de 2012
Gioconda (1 de 3)
Acabei
por não a analisar convenientemente, nem terei conhecimento suficiente para o
fazer. Despreocupada e desinteressadamente, poderá parecer nada de mais, mas a senhora
tem mais de 500 anos! Mal ela imaginaria que ficaria famosa ao ponto de vir gente
de todo o mundo para a admirar, depois de séculos de tropelias, onde se contam
raptos, mudanças de residência e tentativas de agressão. Sinceramente, como mulher
não é nenhuma obra de arte, um rosto que não sendo feio, não é nada bonito, um
decote bastante discreto, roliça e de felicidade contida. Ao vivo passou-me ao
lado, apesar de a ter tido meia dúzia de metros à frente. Agora percebo que a
devia ter visitado mal entrei em sua casa, o desgaste e saturação das pernas e cabeça,
provocado pelos inúmeros focos de interesse das várias salas, pisos e recantos
do seu museu, espaços esses onde, em contraste reina a calmaria, superiorizou-se
à azáfama da multidão de cabeças e corpos concorrentes ao avistamento.
Especial será sem dúvida o facto de ter sido criada numa época longínqua, comprovando que o génio, não depende do tempo. Sem certezas do que digo, é bem possível que tenha revolucionado o conceito de retrato. Mas mais do que a técnica empreendida, o fenómeno será tudo o que até agora movimentou e continuará a movimentar à sua volta.
PS: bem que um artista português qualquer, ou um de renome como a Paula Rego, podia ter aproveitado a visita da senhora Merkel a Portugal para lhe pintar um retrato, nada garante que daqui a uns séculos não viesse a ser a Mona Lisa II, exposta num museu qualquer português.
Especial será sem dúvida o facto de ter sido criada numa época longínqua, comprovando que o génio, não depende do tempo. Sem certezas do que digo, é bem possível que tenha revolucionado o conceito de retrato. Mas mais do que a técnica empreendida, o fenómeno será tudo o que até agora movimentou e continuará a movimentar à sua volta.
PS: bem que um artista português qualquer, ou um de renome como a Paula Rego, podia ter aproveitado a visita da senhora Merkel a Portugal para lhe pintar um retrato, nada garante que daqui a uns séculos não viesse a ser a Mona Lisa II, exposta num museu qualquer português.
domingo, 18 de novembro de 2012
Like Music
Existe por aí um fornecedor de TV que eu agora não posso
dizer o nome (ou não me apetece), mas adianto que começa por “M”, acaba em “O” e
no meio tem a letra “E”, que mesmo sem ter a concessão de serviço público, já o
exerce. Isto de o serviço público cair na mão de privados ser um perigo, devido
ao risco de tal serviço não se efetivar, ou não ser suficientemente bom, é uma
grande balela. O serviço público é tão bom quanto for o produto que se promove
e a forma como a promoção é feita. O “marca do fornecedor” Like Music é disto
um grande exemplo.
A música, como em qualquer cultura, é um elemento fulcral
que deve ser preservado, divulgado e fomentado por um digno serviço público de
televisão. É isto exatamente que o Like Music faz. E muito bem. O produto, a
música portuguesa, é excelente, a promoção inovadora, original e eficaz, e o
serviço público resulta em excelência. A ideia é simples, e como em muitas
coisas é das ideias simples que nascem grandes invenções. Uma banda ou um
artista a solo, em ascensão ou de créditos firmados, um concerto ao vivo, mas
sem público. Aplausos, isqueiros, saltos e pedidos de encore, mas sem
público ao vivo. Público confortavelmente instalado em casa, na sala, cozinha,
quarto, sofá ou cama, sozinho ou acompanhado, comando sempre na mão, mas sem
música ao vivo. TV, box ou computador, fibra ótica pelo meio e está o
espetáculo montado. A música começa, o público vê, ouve e sente, aplaude, salta,
dá à chama e pede mais, pelo comando ou rato, os artistas sentem e puxam pela
contabilização das reações, leem e respondem, ao vivo, aos comentários do
facebook. Numa pequena sala de concertos, a plateia é o mundo de interação
virtual.
Nunca será este um concerto ao vivo em toda a sua
plenitude, mas a vibração está lá. Que o digam Blasted Mechanism, os últimos
que por lá passaram, terminaram extasiados após louca atuação e maratona de incentivo
ao record dos 800 mil aplausos. Antes deles David Fonseca, Filipe Pinto,
Wraygunn, Jorge Palma, Nu Soul Family, Amor Electro, entre outros. Vale a pena
entrar, à boa maneira portuguesa, é de borla e basta clicar. No próximo dia 26,
Aurea, valerá a pena ver. E ouvir também.
sábado, 6 de outubro de 2012
Palavras para quê? (parte 2)
Não
resisti e tive que escrever umas palavras. A imagem é a caricatura perfeita de
um país que se encontra na situação que se conhece, comemora a implantação da
república, longe do povo, num feriado com extinção prometida. Pela situação que
se conhece. A Bandeira não foi hasteada simplesmente ao contrário. Militarmente
quereria dizer que o inimigo estaria próximo e estavamos em perigo, mas não estamos em cenário de guerra,
militar, apesar de até essa já ter sido uma hipótese mais remota. A bandeira
está sim, invertida. Pelo menos foi isso que tive que fazer no Microsoft Picture Manager para obter um
resultado igual ao do Cavaco e do António Costa. Somos portanto, uma nação
invertida, e apesar do colorido da bandeira, não estaremos a querer mostrar ao
mundo que somos todos orgulhosamente gays. Como sugere o dicionário
para invertido. Que a coligação é farinha do mesmo saco, ou socialistas e sociais democratas jogam na mesma equipa. Deixámos foi de estar habituados aos mesmos usos e costumes.
Língua ainda temos, mas cada vez menos nos entendemos ou somos entendidos.
Governados por leis próprias e soberania também já era. Começo a ter dúvidas
que tenha sido apenas um ingénuo erro protocolar, tal é o enquadramento cénico. sexta-feira, 5 de outubro de 2012
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Fábulas da pontinha
Desta pontinha da
Europa ou das várias pontinhas, principalmente as do sul, histórias que têm
sido ultimamente utilizadas por todos e mais alguns para caracterizar os mais
variados episódios da atualidade nacional. Pelos políticos principalmente. O rato
(o Macedo, tomei a liberdade de escolher um animal, à boa maneira da fábula), disse
haver mais cigarras (calões para ele, políticos oportunistas para nós) do que
formigas (os trabalhadores). Uns dias antes, na quadratura do círculo, na sic,
foi um desfilar de personagens nos comentários aos então recentes anúncios do ministro
das Finanças. Desde logo no painel: uma pereira (o Pacheco), um lobo (o Xavier) e
um sapo (o Costa, não no nome mas na figura). Começou o lobo (o Xavier), num tom pausado e
com o seu quê sobranceiro por contar que quando o leão (o Passos) está
moribundo, até o burro (o Seguro, o Jerónimo ou o Louçã) lhe dá pontapés. Ao
que a pereira (o Pacheco) contrapôs com exigência de objetividade, caso contrário
também ele contaria a história do boi (falas, falas) e a rã (mas não dizes nada).
E assim continuaram com referências a outras histórias e lendas, o Rei vai nu
(o Governo), o Pedro (o Sócrates) e o Lobo (a troika)… e eu “Irra, acabem lá com
isso e desenvolvam!”, óbvio que não me ouviram.
De histórias e
disfarces percebem eles, mas nós queremos é transparência e competência. Fábulas,
conheço-as agora melhor, conto-as à noite aos meus putos, de um livro que as
tem originais e em verso, eles adoram os desenhos e ficam sem perceber se a história já acabou, mas
acabam por dormir, embora que com a sensação de que foram enganados. Tal como
nós, mas nós já passamos a fase da sensação, não queremos que nos embalem e
adormeçam como se fôssemos crianças. Estamos bem acordados, temos pouco sono e muitas
insónias! Não resulta. É má comunicação: 1º nem toda a gente conhece as
fábulas; 2º mesmo conhecendo-as, nem sempre a moral é clara e evidente (como na
da rã e do boi em que eu próprio fiquei baralhado); 3º é muito fácil trocar os animais e
subverter a moral (certo Macedo?); 4º irrita ouvir falar de coisas sérias com
este desplante. E assim também eu anuncio que o macaco (o Vítor) fez mais umas macacadas, a raposa (a troika) está à espreita e os animais (nós) em alvoroço e sem governo.
Pior ainda, é que foi um grego (o Esopo) que inventou as fábulas, só faltava que quem as aperfeiçoou (o La Fontaine) fosse alemão em vez de francês, o que já de si é suficientemente mau.
Pior ainda, é que foi um grego (o Esopo) que inventou as fábulas, só faltava que quem as aperfeiçoou (o La Fontaine) fosse alemão em vez de francês, o que já de si é suficientemente mau.
Blaugranas
Só o nome já é
um bocado abichanado. E sinceramente é o que parecem, uma cambada de maricas a
jogar à bola. Toma vai tu, não vai tu, não não leva tu, joga para mim agora,
mete naquele a seguir, joga para trás, para a frente, trás, frente, para o lado,
dá cá outra vez, agora vou eu sozinho, deixa-me passar, não me toques, só mais
um, espera, toma vá marca lá, é só encostar, não, ainda não me apetece, vou
virar de flanco, passa passa. E andam nisto minutos a fio. Irrita qualquer um.
Muito aguentam os adversários, pois a vontade é de lhes bater ininterruptamente
(o que até foi acontecendo mais para o final). E deve ser isso que eles querem,
que lhes batam para ainda passarem por coitadinhos. Nem faltas fazem, que o
futebol é para se jogar. E quando as fazem, só para disfarçar, fazem-nas mal e
até que magoam, ao ponto de serem expulsos. Possivelmente até de propósito, só
para mostrarem que com menos um, continua tudo na mesma. Vaidosos exibicionistas.
Mimados, invejosos que não emprestam nada a ninguém! Eu sempre aprendi que tem que se partilhar. Se é para eles terem uma bola só para eles, então que se mudem as regras, uma para eles, que pode ser de outra cor, se quiserem até pode ser blaugrana, e outra branca. A bola deles não conta para nada, exceto quando entra na sua baliza, a branca tem a função habitual num jogo de futebol normal e tem que ser disputada. Isso é que eu queria ver! Se mesmo assim conseguissem ficar com as duas, então dava o braço a torcer. Se calhar é melhor não, também não os quero ferir na sensibilidade. Mas devia, porque o que eles fizeram foi andar a jogar à rabia num campo de papoilas saltitantes que para pouco mais serviram do que para cenário. Abanavam de vez em quando as pétalas à passagem dos meninos da bola e mais não fizeram do que ligeira comichão e provocar algumas quedas.
Há que lhes perder o respeito e não prestar vassalagem, pois é o que começa a parecer. O futebol espetáculo não é decididamente isto. Podem ser o melhor conjunto dos jogadores mais dotados tecnicamente de sempre. E até posso dizer que tive o privilégio de os ver jogar várias vezes. Mas dá sono.
Mimados, invejosos que não emprestam nada a ninguém! Eu sempre aprendi que tem que se partilhar. Se é para eles terem uma bola só para eles, então que se mudem as regras, uma para eles, que pode ser de outra cor, se quiserem até pode ser blaugrana, e outra branca. A bola deles não conta para nada, exceto quando entra na sua baliza, a branca tem a função habitual num jogo de futebol normal e tem que ser disputada. Isso é que eu queria ver! Se mesmo assim conseguissem ficar com as duas, então dava o braço a torcer. Se calhar é melhor não, também não os quero ferir na sensibilidade. Mas devia, porque o que eles fizeram foi andar a jogar à rabia num campo de papoilas saltitantes que para pouco mais serviram do que para cenário. Abanavam de vez em quando as pétalas à passagem dos meninos da bola e mais não fizeram do que ligeira comichão e provocar algumas quedas.
Há que lhes perder o respeito e não prestar vassalagem, pois é o que começa a parecer. O futebol espetáculo não é decididamente isto. Podem ser o melhor conjunto dos jogadores mais dotados tecnicamente de sempre. E até posso dizer que tive o privilégio de os ver jogar várias vezes. Mas dá sono.
domingo, 16 de setembro de 2012
A vida que nunca tivemos?
Cerca de 600 mil reclamaram ontem nas ruas, na maior
manifestação em Portugal após o 25 de Abril, contra as mais recentes medidas do
Governo. Muitos milhões seguiram solidariamente onde quer que estivessem.
Outros tantos terão pelo mundo fora notado, mesmo que por breves segundos, que
algo de importante se passava neste nosso canto. No espaço de uma semana, a era
global da informação permitiu através de um único meio – o Facebook – a mobilização
de quase um milhão de pessoas (se juntarmos os portugueses que além fronteiras
se manifestaram, não deve andar longe), sob o lema: “Que se lixe a Troika.
Queremos as nossas vidas”. Simples, direto, assertivo. As nossas vidas! É disto
que se trata.
O que têm sido as nossas vidas? Até há pouco tempo atrás, Portugal
era um país bom para viver. Os que pouco ou muito pouco tinham, iam-se safando,
os que tinham alguma coisa, safavam-se e os que tinham muito safavam-se à
grande. Até os que lá fora nada tinham para cá vinham. Agora fogem para os seus países
e nós para os deles. Os que têm muito já partiram, os que têm alguma coisa,
perspetivam cada vez menos e são forçados a ir, os que pouco têm, arriscam-se a nada ter e, são cada vez mais os que nada têm. Dizem-nos
agora que vivíamos acima das nossas possibilidades. Após o último auxílio do FMI
ao nosso país, há sensivelmente 30 anos atrás, seguiu-se a entrada na CEE e desde
então foi sempre a subir. Vertiginosamente, sem olhar para trás, nem para a
frente. Fomos inundados por uma onda de benefícios e facilidades, que naturalmente
aproveitámos sem grande orientação ou caminho definido. Subsídios, fundos,
créditos e apoios. Para gastar. Sem estratégia de ninguém. Cidadãos ou Estado.
Todos comeram! Agora a vaca secou, mirrou (pelo menos
para alguns) e pior exibe-nos a conta, percebemos que temos sido enganados e
iludidos por facilidades aparentes e perniciosas. Antes do FMI em 1983, vivemos
a pós-revolução com o desnorte e dificuldade normal de quem se liberta do
totalitarismo, de uma ditadura autoritária e repressiva, espelho da falta de liberdade
e condições dignas para viver. Antes disso as perturbações das primeiras
repúblicas. Não tínhamos as nossas vidas, como não as temos agora.
A vida que vamos ter nunca a tivemos. Vasco Pulido Valente escrevia hoje no Público, sob o título “Ano
II da era da crise”. Da minha curta existência, para mim será o ano 30 e qualquer
coisa da era da ilusão. O que tentamos ver pela frente chega em forma de ajuda
tripartida com um custo indecente de pobreza somado de juro nada solidário, que só nos afundará mais. As alternativas
que poucos nos sabem explicar, apontam para a renegociação de dívida rompendo
com os que nos amarram, mas aumentado o risco de bancarrota. Que aliás nos tem
acompanhado ao longo da história. O que
custa é olhar para trás, mais até do que para a frente, e perceber que afinal
raramente tivemos verdadeiramente as nossas vidas. Mais do que as nossas
vidas queremos um rumo, uma identidade de futuro que não o imediato. A navegação
à vista, deu resultado nos descobrimentos, há 500 anos atrás. E já aí demonstrávamos arte, engenho, competência, coragem.
sábado, 8 de setembro de 2012
Pesadelo
Ontem o dia estava quente e
húmido, estranho e desajustado de um período de retoma de atividade após época
de férias. O país
consome-se nas notícias e nos incêndios devastadores. O BCE até vai começar a comprar ilimitadamente a dívida e as bolsas
subiam como já não era hábito. Presságio e engano. O primeiro-ministro ia falar
ao país meia hora antes do jogo de Portugal no Luxemburgo. Finalmente seria
conhecido o tão aguardado resultado da avaliação do 5º exame da troika. O
otimismo e esperança pessoais foram praticamente desfeitos com o pré-anuncio de
austeridade e a desconfiança dos exames de 2ª época, que nunca foram de fiar. O
resultado ouvi-o então na rádio. Falou, anunciou, destruiu. Uma terrível
machadada! Aos euros de roubo no ordenado somaram-se a descrença, o desânimo, a
desmotivação, o desacreditar. Calou-se, 5 minutos de análise dos comentadores
e, chega. Pois a bola já rolava. Uma volta completa pelas frequências
radiofónicas e nada de austeridade: música para alegrar e o relato para
distrair. Golo dos amadores luxemburgueses, sobre os tristes burgueses de
Portugal. Só podia ser pesadelo! Será que a troika encena tudo isto?
O pesadelo temo-lo vivido, não
ontem, mas nas últimas décadas. Só que em forma de sonho. Que pior do que viver
na ilusão, no engano de uma falsa prosperidade, governados pelas mentiras, más
políticas e oportunismos de uma classe e sistema orientados por interesses de
uma minoria que quer controlar e manipular em seu benefício? E assim
continuamos com remendos, ou remédios austeros num sistema económico e
financeiro mundial obsoleto e disfuncional. Equidade entre empresas e
trabalhadores, só nos ideais supostamente utópicos do comunismo. Equidade numa
taxa igual, transversal e cega para todos, só em teoria, na prática sem
solidariedade. Equidade só se for no aproximar dos salários baixos ao
desemprego.
Temos que acordar!
PS: No meu pesadelo que foi bem real, ainda antes do pré-anuncio fui multado e bloqueado pela EMEL numa brincadeira de 90 euros. O que, vistas bem as coisas é um mal menor, mas que contribui para a depressão final. Mais um exemplo de como muitos males menores, se assumem cada vez maiores e nos vão deitando a baixo...
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Mercado da Ribeira
publicado no site do Record http://www.record.xl.pt/opiniao/leitores/interior.aspx?content_id=776579
Abre às 6 e fecha às 15. Ou abria, já teve melhores dias e agora é um ponto turístico, mas enquanto funcionava, toda a gente conhecia as regras. Agora, o mercado das transferências futebolísticas é um verdadeiro “salve-se quem puder”. Há mercados regulamentados, mas este não se pode dizer que o seja, apenas por ter definidos dois períodos temporais em que se podem fazer transações. De jogadores. No verão e no inverno. A lei é só uma: milhões de euros. Muitos. Quem tiver mais, ganha. Ganha porque compra e não deixa mais ninguém comprar.
Abre às 6 e fecha às 15. Ou abria, já teve melhores dias e agora é um ponto turístico, mas enquanto funcionava, toda a gente conhecia as regras. Agora, o mercado das transferências futebolísticas é um verdadeiro “salve-se quem puder”. Há mercados regulamentados, mas este não se pode dizer que o seja, apenas por ter definidos dois períodos temporais em que se podem fazer transações. De jogadores. No verão e no inverno. A lei é só uma: milhões de euros. Muitos. Quem tiver mais, ganha. Ganha porque compra e não deixa mais ninguém comprar.
Estamos em
crise, não há dinheiro e a grande maioria dos clubes compra muito pouco. Nada
se passa, até que, intencionalmente, no último dia, 2 ou 3 clubes-império assediam o
que há muito tencionavam assediar. O poder negocial dispara e impõem a sua
vontade à força dos milhões que acenam numa mão aos clubes e jogadores. No
pulso exibem o relógio em contagem decrescente. Finalmente há dinheiro e o
mercado agita-se. Os clubes que recebem, logo pensam em investir e reforçar os
planteis, acabadinhos de desfalcar. Tarde de mais, o mercado fechou! Mas o quê?
Já?! Não calma, na França, Turquia e Rússia continua aberto. Ah bom! Bom, mas
para quem tem dinheiro! Outra vez não! Agora ainda é melhor para quem compra. Pouca concorrência e ainda bons artigos. É
só tirar 40 milhões de um bolso mais 40 do outro e esperar pacientemente. Qual
frio, qual ambição, qual glória, qual quê! “Onde se assina?”, perguntam Hulk e
Witsel. E o que fazer com 60 milhões no bolso e as calças na mão, Benfica? Nada. O mercado já tinha
fechado. Quem até se foi precavendo, o Porto, terá menos danos, quem não o fez
resta-lhe aguardar pela humilhação na Luz com o Barcelona. A época passada ficaste em fevereiro, nesta não chegas a outubro. O Vieira podia ter
feito mais? Apenas antecipar-se com um pseudo-substituto contratado
atempadamente, ou com uma renovação que até foi tentada em cima da hora. Mas
não há nada que vença os litros de milhões do gás russo. Espero que também sirvam para o aquecimento central!
Quem tem dinheiro salva-se. A feira da ladra talvez seja mais leal. Este mercado é uma ladroagem! É por isso que eu agora só vejo a segunda liga e o Benfica B: não há mercado nem contratações de jogadores influentes à última da hora, jogam os jovens e outros reforços que nunca puderam mostrar valor, os jogos são transmitidos em sinal aberto na isenta Benfica TV (e não nos chulos da SportTv ou nos míopes da TVI que não sabem distinguir jogadores) e melhor que tudo, o Porto não ganha, está apenas acima da linha de água e mesmo que fosse campeão nem à europa ia.
Quem tem dinheiro salva-se. A feira da ladra talvez seja mais leal. Este mercado é uma ladroagem! É por isso que eu agora só vejo a segunda liga e o Benfica B: não há mercado nem contratações de jogadores influentes à última da hora, jogam os jovens e outros reforços que nunca puderam mostrar valor, os jogos são transmitidos em sinal aberto na isenta Benfica TV (e não nos chulos da SportTv ou nos míopes da TVI que não sabem distinguir jogadores) e melhor que tudo, o Porto não ganha, está apenas acima da linha de água e mesmo que fosse campeão nem à europa ia.
sábado, 1 de setembro de 2012
RTP e 2ª época de exames-troika
Evidentemente fará sempre confusão a privatização de um
serviço público tão facilmente exposto às guerras e às pressões comerciais das
audiências. Primeiro há que perceber, faz sentido privatizar? A RTP até não dá
lucro? Dá. Mas é cara. Mas dá lucro! É difícil de entender, mas admitindo que
faz sentido, e uma vez privatizada, um dos riscos será perder o serviço
público, e nesse cenário, reconhecer o erro e recuperá-lo. Em termos lógicos,
parece-me que até seria mais fácil fazê-lo com uma concessão. Assim de repente
e ainda influenciado pelas férias, as praias também são concessionadas. Aí é
fácil controlar, até se pode por o nadador salvador a cobrar os toldos e a
impedir que sejam colocados chapéus de sol no horizonte. Quem pode, quer, paga
e usufrui de uma boa praia, quem não pode ou não quer, arranja praia de segunda,
compra gelados e vai ao wc do concessionário. O mesmo que paga o servidor
público – o nadador. Se até na praia é difícil definir quantos nadadores por
metro são precisos, pior será definir serviço público de televisão e em que
quantidade, num canal que está longe de ser uma praia. Portanto, quem não
gostar do serviço público concessionado da RTP1, terá que se contentar com serviço
público na RTP2. Isto se o canal se mantiver, o que não é claro, como não é nem
nunca foi claro, o porquê da privatização. Porque o
Relvas prometeu a alguém? A quem? Porque a troika disse? Mas o que é que a
troika sabe? Aplicar programas, que muitas vezes não encaixam na grelha.
A troika está cá para mais um exame. Toda a gente sabe que
Agosto não combina com avaliações e exames, e só isso é razão para alarido.
Pior ainda quando se sabe que a avaliação será negativa. A não ser que o
avaliador não olhe apenas aos números deficitários, mas também ao texto e ao
contexto, o que até já fez com outros países, que por terem fama de alunos bem
comportados, foi-lhes concedida essa benesse. É aguardar sem histerismos. Antes
histéricos do que amorfos, abatidos e resignados. Mas não posso deixar de
opinar que tudo isto estará também empolado pelo stress pós férias-crise, que
explico no post anterior e já agora completo: a alucinação também será um sintoma, é que a Administração da RTP caiu, mas o Relvas continua...
Stress pós férias-crise
Já era conhecido o stress pós-férias, que não é mais do que
o nome pomposo para ressaca e preguiça depois do descanso. É este o estado
geral da sociedade portuguesa, nesta altura do ano. O que safa é haver ainda
pouco trânsito. Os sintomas são claros: ansiedade, cansaço, tristeza, mau
humor, insónias. E como estamos em crise, as férias onde é suposto descansar
dos deveres e obrigações quotidianas, foram diferentes. Com a crise, as férias
foram cá dentro, é o mesmo que dizer que fizemos férias nela, com ela ou dentro
dela. Da crise entenda-se. Nas férias o português arranja sempre forma de contorná-la
e de certa forma esquecê-la, o que até confere o sentimento de realização
pessoal. Não dá para ir para fora ficamos cá dentro, não dá para ir para o
Algarve, ficamos na Costa, não dá para ficar no hotel ficamos em casa e comemos
fora, não dá para comer fora, fazemos o farnel e levamos para a praia, não dá
para comprar de marca, compramos da marca do supermercado. E isto cansa. De um
dia para o outro as férias acabam e apesar da crise ter estado sempre presente
na lancheira, voltamos ao trabalho e deixamos de a conseguir contornar. Lá se
vai a realização pessoal do desenrasque. O stress pós-férias é assim agravado
pela crise, dando lugar ao stress pós férias-crise que é trinta vezes pior.
Estamos sensíveis e perante qualquer acontecimento, faz-se um grande alarido e
entra-se em histeria. São estes os dois sintomas que distinguem um stress do
outro: alarido e histeria.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Live at London
Ainda os jogos. Já se sabia que os ingleses
têm a mania de serem diferentes. Fizeram questão de o mostrar mais uma vez
nestes olímpicos. Prova disso foi a cerimónia de abertura, mas principalmente a
de encerramento. Não sei agora precisar quanto, mas com orçamento bastante
inferior ao da última edição, a faraónica de Peqim, os britânicos não se deixaram
passar despercebidos e não fizeram cerimónia. Fizeram sim, uma grande cerimónia.
O ponto alto foi, com toda a certeza (pelo menos para mim), a ressurreição de Freddie Mercury em pleno estádio olímpico para a reedição interativa do “Live at Wembley”. Momento genial! Quem imaginaria voltar a ver e ouvir, a sentir, um estádio inteiro a acompanhar em uníssono esse ícone musical com os famosos “dirórês”? Melhor, não poderia ter resultado. Qualquer apreciador de música ao vivo e de todo o espetáculo subjacente terá desejado estar presente. Brian May um monstro da guitarra, bem vivo, revigorou “We will rock you”, tema já de si bem pujante, num excelente dueto com a bela Jessie J. O desfile de ídolos não se ficou por aqui. Pode-se até dizer que foi a cerimónia do prefixo “re”. Reaparecimentos de John Lennon e dos Beatles (Paul McCartney na abertura), David Bowie, George Michael, The Who, Annie Lennox, Pet Shop Boys, Pink Floyd. Reavivar e relançamento de Artic Monkeys, Kaiser Chiefs, Jessie J… e o rejuvenescimento das maduras, mas sempre picantes Spice Girls.
O ponto alto foi, com toda a certeza (pelo menos para mim), a ressurreição de Freddie Mercury em pleno estádio olímpico para a reedição interativa do “Live at Wembley”. Momento genial! Quem imaginaria voltar a ver e ouvir, a sentir, um estádio inteiro a acompanhar em uníssono esse ícone musical com os famosos “dirórês”? Melhor, não poderia ter resultado. Qualquer apreciador de música ao vivo e de todo o espetáculo subjacente terá desejado estar presente. Brian May um monstro da guitarra, bem vivo, revigorou “We will rock you”, tema já de si bem pujante, num excelente dueto com a bela Jessie J. O desfile de ídolos não se ficou por aqui. Pode-se até dizer que foi a cerimónia do prefixo “re”. Reaparecimentos de John Lennon e dos Beatles (Paul McCartney na abertura), David Bowie, George Michael, The Who, Annie Lennox, Pet Shop Boys, Pink Floyd. Reavivar e relançamento de Artic Monkeys, Kaiser Chiefs, Jessie J… e o rejuvenescimento das maduras, mas sempre picantes Spice Girls.
Não foi preciso inventar muito, bastou usar o que já estava
inventado. Com tanta matéria-prima, o trabalho de qualquer realizador,
encenador ou coreógrafo, restringe-se à tarefa de gestor de alinhamento. Simples,
mas boa música, requinte e bom jogo de luzes: sai uma cerimónia e um espetáculo
grandioso.
Foram os britânicos a exibirem o que de melhor a sua cultura tem exportado ao longo dos últimos 50 anos. E quer se queira, quer não, também através da cultura lá estiveram os genes portugueses, com sotaque brasileiro na passagem de testemunho para 2016.
(Como não consegui comprar os direitos de imagem, ficam os links: Queen - http://www.youtube.com/watch?v=YzoyDILKlhY; Spice Girls - http://www.youtube.com/watch?v=PArTdhNda7k)
Foram os britânicos a exibirem o que de melhor a sua cultura tem exportado ao longo dos últimos 50 anos. E quer se queira, quer não, também através da cultura lá estiveram os genes portugueses, com sotaque brasileiro na passagem de testemunho para 2016.
(Como não consegui comprar os direitos de imagem, ficam os links: Queen - http://www.youtube.com/watch?v=YzoyDILKlhY; Spice Girls - http://www.youtube.com/watch?v=PArTdhNda7k)
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Correio do leitor
As secções jornalísticas destinadas à correspondência dos
leitores causam-me algum desconsolo. Em nome da poupança de espaço, cortam e
truncam o que lhes apetece. No fundo praticam austeridade literária. E nesse
sentido, sinto-me lesado, pois a minha, boa ou má, não deixa de ser literatura.
É por isso que reclamo um artigo publicado, mas num espaço condigno, sem
censura e com relativo destaque. É ambicioso e presunçoso? Sim. Mas apetece-me
reclamar os meus 15 minutos de fama. Que serão apenas algumas dezenas de
segundos, não mais do que o tempo que demora a ler um texto como este.
Por ventura estarei a ser demasiado pretensioso. Afinal de
contas, não tenho qualquer formação superior que me confira qualquer
credibilidade para, de repente, querer publicar um texto. Mas antes desabilitado do que com uma licenciatura “relvaticamente” formada. Ou forjada. Bem sei que vivemos numa
selva em que vale tudo. Mas eu estudei, trabalho, desconto e na velhice a única
certeza que tenho é a de que a reforma será uma miragem. A mesma reforma que
outras ervas daninhas adquirem em meia dúzia de anos no parlamento. As tais
subvenções criadas pelo Cavaco para compensar os que servem o país, pelas
oportunidades profissionais perdidas no tempo de desgovernação. Vá lá que o
Sócrates estava atento e acabou com isso. Terá sido o assumir que afinal a
governação não fecha portas, abre sim os gabinetes de grandes empresas. As
mesmas onde se começa a pagar e procurar mais um serralheiro ou um carpinteiro,
do que um arquiteto ou um engenheiro. Isto assim escrito, até teria alguma
piada, mas não tanta, ao ponto de arrancar gargalhadas daquelas que permitem
aos novos famosos, os palermas dos comediantes, terem colunas em tudo o que é
revista e jornal.
Ora então, se hoje em dia se fazem licenciaturas
instantâneas, que não servem para nada pois precisam-se é de ferramentas, não
de canudos, se qualquer palerma publica num jornal e se cada vez mais se
reclamam oportunidades, então eu também quero! Não que escreva maravilhosamente
bem, mas isso até pode ser requisito. Escrevo o que me vem à cabeça e tento
transmiti-lo genuína e arcaicamente na melhor forma. E não me deem secções de
correspondência ou do leitor. Eu nem sou grande leitor. Muitas vezes não tenho
paciência, leio as gordas e tento ficar com uma ideia. Ler, vale a pena, mas
tem que haver disponibilidade mental e assimilação de qualquer coisa. Ler, só por
ler, sem entrar nada é que não. É por isso que fico por
aqui.
sábado, 11 de agosto de 2012
Escravos olímpicos
Os até agora resultados dececionantes dos atletas portugueses, beliscam o orgulho dos seguidores dos entusiasmantes
jogos olímpicos. Neste caso os de Londres. Para os adeptos do desporto, os
jogos são uma grande festa. Variedade de modalidades, horas e horas de
competição, espetáculo e recordes para bater na concretização infalível de 4
anos de espera.
Invariavelmente aprendemos a ver os jogos de uma forma menos tensa, mais lúdica, pois já não esperamos grandes feitos nacionais. Falta de preparação, de atitude, de apoio, demasiada pressão, um dia mau, várias são as justificações. A verdade é que fomos ficando para trás. Edição após edição, os resultados evoluem, a competição é mais feroz e uma medalha que se pode ter apenas de 4 em 4 anos é disputada a um nível elevadíssimo. Os jogos, que têm a sua sustentação num espírito olímpico são cada vez mais o espelho de capacidades super-humanas. O esforço que é empreendido por um atleta na preparação dos jogos começa a atingir níveis que desafiam o limite da capacidade humana. Capacidades sobre-humanas. Fará sentido dedicar toda uma vida por uma medalha? Toda uma vida parece exagero, mas o que inicialmente são 10 ou mais horas de treino diário durante a infância, adolescência e juventude, são no futuro horas perdidas ou não ganhas numa infância, adolescência ou juventude que não se vivem outra vez, e onde não se viveu o que se devia ter vivido. E sabemos como marcam estas fases, a vida. Irrecuperável e sem preço. Por representação de um país, a troco de uma bolsa incerta e glória efémera. Nalguns países, os mais desenvolvidos, um atleta que se compromete física e espiritualmente durante anos para alcançar a glória, até terá o seu futuro garantido. Phelps foi transformado de criança hiperativa no mais medalhado de sempre, à porta dos 30 anos deixa as piscinas e de certo a América lhe dará uma ocupação, mas qual será o futuro das jovens ginastas chinesas e de toda a quase totalidade dos atletas que não ficam na história? As capacidades são afinal desumanas.
Os portugueses não conseguem nenhuma glória. A prata dourada na canoagem é a exceção que confirma a regra. Sem dúvida um grande feito, a modalidade menos financiada alcança o melhor resultado. Talvez até Portugal conseguisse algo mais se houvesse um maior comprometimento e esforço de todos os envolvidos. Mas se calhar é melhor mantermo-nos assim. Normais. O desporto é suposto ser são.
Os jogos necessitam de um reset. Escravos eram os gladiadores nos jogos do coliseu de Roma.
Invariavelmente aprendemos a ver os jogos de uma forma menos tensa, mais lúdica, pois já não esperamos grandes feitos nacionais. Falta de preparação, de atitude, de apoio, demasiada pressão, um dia mau, várias são as justificações. A verdade é que fomos ficando para trás. Edição após edição, os resultados evoluem, a competição é mais feroz e uma medalha que se pode ter apenas de 4 em 4 anos é disputada a um nível elevadíssimo. Os jogos, que têm a sua sustentação num espírito olímpico são cada vez mais o espelho de capacidades super-humanas. O esforço que é empreendido por um atleta na preparação dos jogos começa a atingir níveis que desafiam o limite da capacidade humana. Capacidades sobre-humanas. Fará sentido dedicar toda uma vida por uma medalha? Toda uma vida parece exagero, mas o que inicialmente são 10 ou mais horas de treino diário durante a infância, adolescência e juventude, são no futuro horas perdidas ou não ganhas numa infância, adolescência ou juventude que não se vivem outra vez, e onde não se viveu o que se devia ter vivido. E sabemos como marcam estas fases, a vida. Irrecuperável e sem preço. Por representação de um país, a troco de uma bolsa incerta e glória efémera. Nalguns países, os mais desenvolvidos, um atleta que se compromete física e espiritualmente durante anos para alcançar a glória, até terá o seu futuro garantido. Phelps foi transformado de criança hiperativa no mais medalhado de sempre, à porta dos 30 anos deixa as piscinas e de certo a América lhe dará uma ocupação, mas qual será o futuro das jovens ginastas chinesas e de toda a quase totalidade dos atletas que não ficam na história? As capacidades são afinal desumanas.
Os portugueses não conseguem nenhuma glória. A prata dourada na canoagem é a exceção que confirma a regra. Sem dúvida um grande feito, a modalidade menos financiada alcança o melhor resultado. Talvez até Portugal conseguisse algo mais se houvesse um maior comprometimento e esforço de todos os envolvidos. Mas se calhar é melhor mantermo-nos assim. Normais. O desporto é suposto ser são.
Os jogos necessitam de um reset. Escravos eram os gladiadores nos jogos do coliseu de Roma.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
O meu primo Carlos
Ligou-me há um mês atrás para me dar os parabéns. Do
Indiana. Estava calor, vários fahrenheit, que só por si já são muitos. “Em
Chicago é que é bom”, acrescentou. Que grande maluco! O que virá a seguir? “Estou
no Alabama! Aqui no faroeste do Colorado é uma autêntica torreira”. Imagino-o
nos desfiladeiros, dos filmes de cowboys que víamos na infância. A esta
distância, agora percebo que logo nessa altura, o mundo poderia ser pequeno
para o irrequieto Carlitos. Eramos como irmãos. Para mim também um melhor
amigo. Fazíamos coisas de putos, normais da idade. Com as raparigas sempre foi
mais afoito. Mas agora refiro-me aos espalhanços de bicicleta, aos carros de
rolamentos, aos piões. Partilhas e cumplicidades. Algumas bem parvas, como escondermos
um ramo de cabeças de alho nos sacões de papelão de dezenas de pães que os
nossos pais nos encomendavam para o café.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Portugal festivaleiro
publicado na BLITZ de Agosto de 2012
Gosto da palavra festivaleiro, é forte, soa bem e transmite alegria. Não haverá motivos para grandes festejos e animações, mas inversamente ao estado geral, Portugal é neste momento o país Festival. E não num sentido negativo. Nesta época do ano, dá para ficar perdido no mapa dos festivais tal é a quantidade! E com tamanho ecletismo. Norte, centro e sul. Interior, serra, planície e litoral. Praia e campo. Continente e ilhas. Só a tmn está em três, a Optimus em dois e a Vodafone noutro. RTP, SIC, rádios e jornalistas. EDP e Partido Comunista. Super Bock e Sumol. Relva, pó, cimento, muralhas ou terra. Pop, rock, jazz, metal, alternativa e electrónica. Clássico e contemporâneo. Palcos grandes, médios, pequenos e tendas VIP. Bandas, mais que muitas, novas, velhas, jurássicas, nacionais e estrangeiras.
Gosto da palavra festivaleiro, é forte, soa bem e transmite alegria. Não haverá motivos para grandes festejos e animações, mas inversamente ao estado geral, Portugal é neste momento o país Festival. E não num sentido negativo. Nesta época do ano, dá para ficar perdido no mapa dos festivais tal é a quantidade! E com tamanho ecletismo. Norte, centro e sul. Interior, serra, planície e litoral. Praia e campo. Continente e ilhas. Só a tmn está em três, a Optimus em dois e a Vodafone noutro. RTP, SIC, rádios e jornalistas. EDP e Partido Comunista. Super Bock e Sumol. Relva, pó, cimento, muralhas ou terra. Pop, rock, jazz, metal, alternativa e electrónica. Clássico e contemporâneo. Palcos grandes, médios, pequenos e tendas VIP. Bandas, mais que muitas, novas, velhas, jurássicas, nacionais e estrangeiras.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Manel Zé à Selecção!
Trato-o assim, não por menosprezo, ou discordância com a sua
recente posição relativamente à Selecção de todos nós. Trato-o assim, não por o
conhecer pessoalmente e ter confiança para tal. Trato-o assim, porque ele
revelou um tremendo conhecimento dos portugueses. De todos nós e da situação
que directa ou indirectamente vivemos. Tratou-nos como se nos conhecesse
profundamente, sentindo e solidarizando-se. Tratou-me também a mim, e se ele o
fez, eu também posso dizer: “É isso mesmo Zé! Manel, Zé!”.
A solidariedade só se consegue praticar verdadeiramente
quando é sentida. E a esta selecção é difícil sentir. É feita de elites. As que
sentem a crise de maneira diferente, ou não a sentem de todo. O que apesar de
tudo, não deixa de ser estranho. Muitos estamos, conhecemos directamente alguém
que está ou corre o risco de vir a estar desempregado. Os tempos mudaram é
impossível estar indiferente e fingir que nada se passa. E é isso, ou
praticamente, que tem sido feito. Indiferença perante a grave situação económica
e social em que Portugal se encontra. Indiferença dos protagonistas por o permitirem e
dos que fazem por mostrar. Durante as últimas semanas, diariamente e com
relativa frequência horária, somos invadidos com o relato dos últimos minutos
deste ou daquele envolvido na selecção. Seja ele jogador, treinador, médico,
dirigente, fotógrafo, cozinheiro ou motorista.
Eu quero é futebol! Técnica, táctica, golos! Se quisesse um
Big Brother via a TVI!
terça-feira, 22 de maio de 2012
Taça de Ouro Negro
O Cavaco não foi ver a final da Taça. Algo de muito
importante e de interesse extremamente superior deve ter ido fazer, para que,
um país que vive de futebol e tem na festa do Jamor um dos dias mais
importantes do ano, se veja privado do chefe maior da nação. Como se não
bastasse, seguiu em sua substituição a segunda figura mais importante do Estado. Um acontecimento de primeira, não pode ter um representante de
segunda! E para quem andar mais distraído, a segunda figura não é o Passos (a
figura dele é outra, a da chacota). A segunda figura é antes uma mulher, sem
desprimor para o sexo feminino que cada vez mais vive efusivamente o futebol, a
chefe da Assembleia da República que lá fez o frete de não entregar a Taça aos
leões e aprová-la aos briosos estudantes coimbrões de negro.
De negro estará o Cavaco em Timor a tentar encher a
taça das influências e das relações internacionais. De milhões do fundo do
petróleo que, em 10 anos, fizeram de Timor devedor a potencial credor de Portugal. Assim
o admitem os seus dirigentes e o confirma o nosso presidente, embora que
disfarçadamente. Mau disfarce de uma campanha publicitária do bom investimento
que é a dívida portuguesa. Podia-se ter levado um spot da pêra rocha, da maçã
bravo de Esmolfe, do azeite galo, do mais recente tinto campeão do mundo, da
tecnologia, do tomate cereja ou da própria cereja. Mas não, publicitou-se
dívida. Refletindo melhor, publicitar produção nacional da boa, para quem
comprar? Uma população, em que metade vive a baixo do limiar de pobreza, sendo
que a outra metade não deve andar muito acima? Talvez até faça sentido promover
dívida.
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